sábado, 17 de janeiro de 2009

=1,11¹

E demorava cada vez mais. Ele esperava e ainda continuava esperando depois de já ter esperado bastante tempo, e ela se demorava. E parecia demorar cada vez mais, ela, que nem tinha sido chamada. Tudo se soltou em sua cabeça ao esperar e tentou contrabalancear o peso de todas as pessoas acima dele e de todo o universo e mil cosmos espirituais que o forçaram a voltar o pescoço para trás, inútil. Inútil descrever cada e qualquer ato na vida de qualquer pessoa, tudo que fazemos é inútil. As imagens que se passavam em sua cabeça também não eram boas. Esperar não é legal. Ir ao banheiro também não, mas se fazia cada vez mais necessário. Quebrar a tensão latente do desmovimento também não é legal. Isso pode ser feito com um simples movimento, mas não vamos nos ater a descrever cada pequena inutilidade que se passa dentro de sua cabeça enquanto agoniza na espera ou cada pequena batalha que se traduz como um movimento, uma respiração, um sopro capaz de alargar os oceanos daqui até a felicidade na outra borda. O vento está contra o nosso favor. Algo está? Nosso? Nem nós estamos, nem ele. Falar nós é generalizar a humanidade enquanto sem perceber já nos colocamos como parte desse grande grupo familiar, a humanidade. Bem, eu não sou um humano, não me coloco em grupo nenhum não, eu posso me recusar a dizer humanidade. Eu posso dizer eu, eu posso dizer { }. Vazio. Urina amarela e de cheiro forte lhe parecia o sinal da lenta degradação a que estava submetido desde o momento em que sua graça lhe foi concedida, graça por poder observar o mundo e atrair tudo que não deveria ser atraído e bem, rir disso depois ou agora mesmo. Também não se punha em grupo nenhum, também esperava de novo na fila dos cardíacos desejando não haver nada de errado enquanto sua cabeça já imaginava o quão bem uma doença terminal lhe faria agora. Mórbido, mórbido como a morte relatada nos diários de Napoleão acerca da urina forte e de tons queimados, que queimaram seu nariz. O nojo, o nono, a nonagésima decepção do dia e a tercina de acontecimentos fortes e pesados que não podem ser relatados mas sim, todos os banheiros deveriam ter água, descarga e papel. Se tivesse um desses três, poderia valer a pena a ida e a vinda seria reconsiderada ao encontrar a cadeira já acostumada com o formato gentil das nádegas que até então a ocupavam agora sorridente vendo acima de si uma enorme bunda com pernas capazes de alimentar uma tribo inteira dos primeiros nórdicos a habitarem a groelândia. Alguém estava feliz, a balança se inverteu, a balança da felicidade como a bolsa da economia que cresce mas um ganha e outro perde e ninguém na verdade entende como funciona mas todos querem ser algo algum dia. Durex e ponta de caneta no balcão, brincou de identificar cada vinco de seu lábio na cola do durex do durex que antes colou na boca do durex que, brincalhão, não deveria estar na boca de alguém com tanta certeza de seus atos. A inveja, o ciúmes. Nojo. A tampa não vale a pena se para isso teria de se abaixar e assim se rebaixar e assim se angustiar seu frágil estomago seus sensiveis olhos nessas horas a ortografia espera pois manifestações e aglomerações são os maiores ingredientes do chamado ascohumanitário, assim já se pondo em um grupo ou formando um. Porque, se algo por um acaso acontecesse e a moça das grandes nádegas resolvesse pensar e comprar um espelho mentira olhar dentro de sua cabeça, pode ser que percebesse que não faz parte de lugar nenhum ao mesmo tempo que ocupa lugar demais mas se alegraria em saber que em seu corpo podem residir mais ou menos o dobro de bactérias e microorganismos do que no corpo de uma pessoa normal que se orgulha de sua vantagem populacional com relação à criança ao cachorro e ao próprio ser unicelular que espera descobrirem alguém menor porque ser o menor de todos não lhe faz bem. Eu não me orgulho, eu não quero hospedar ninguém, ele também. Mas eu não estou esperando e estou observando o que não aumenta a minha dignidade mas não me vejo mais como menor de todos quando comprei um microscópio pude quase que ver a realidade por debaixo dos pêlos macios do sofá e me senti realmente como a mulher gorda diante de uma privada que a priva de satisfazer suas necessidades. Ele era o menor no momento, e antes disso. Se desconfiava na chula certeza de sua superioridade quase doentia com relação ao e o que lhe dava o direito de se enojar com as pessoas ao seu redor, com a humanidade, com os seus microorganismos que fizeram sua urina ficar cheirosa e forte e queimada e na verdade são nutrientes o que lhe dava a razão de se enojar com nutrientes? Eu lhe daria a razão de se enojar enquanto desiste de procurar a tampa de caneta no chão para não fazer papel de quem deixa escapar uma caneta pelas mãos porque não é algo que as pessoas se orgulhem ninguém gosta de deixar as coisas caírem mas todo mundo se importa com a atendente cuja caneta secou por causa da falta da tampa perdida porque o homem se sentiu superior. Mas isso é uma metonímia uma diversa metonímia porque a tampa era o que ele esperava mas assim ele se sentou e assim desistiu de procurar com os olhos antes que fosse notado com os olhos perdidos no chão procurando algo que talvez nunca tenha existido e isso não o impediu de perder o inexistente que o satisfazia por entre seus dedos, como a areia da praia que essa talvez exista mas nunca nas nossas mãos por muito tempo. Desistiu e esperou e agonizou e um quadro mal pintado na parede lhe chamava mais atenção do que as trocas rápidas de cena na cnn entre esportes um conflito armado desumano nos lados orientais da Europa e a previsão do tempo. Tomara que ela acerte, quero que faça bastante frio. Sentiu nojo ao sentir nojo do mundo e da humanidade grupal que o cercava e não quis mais esperar porque uma parede suja fazendo fundo para uma televisão inútil era o mesmo que a morte para ele. Quis ir embora, mas a tampa lhe parecia querer de volta. E foi assim, e não foi pra casa aquela noite. Foi para seu apartamento e quase não dormiu exceto por um pequeno lapso no seu tratamento antisono porque as revistinhas já não tinham graça nenhuma. A tampa era sua vida. Esperar por uma tampa que nunca virá lhe enojou.

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