Não sei se pode me olhar sem te conceber a idéia geral de um choro. Cada polegada dessa pele está recoberta com um disfarce para esconder as cicatrizes e as feridas que não cicatrizaram e não cicatrizarão; pois todo o sopro que foge é um motivo para me levar junto ao lugar nenhum aonde o silêncio e a harmonia absoluta reinarão e para lá que todos somos destinados quando tudo mais perder o que algum dia foi pensado ter, e é lá que conhecerão a nossa essência que se prender nos pequenos cantos escuros das veias turbulentas de uma cidade grande amarrotada com cheiro de grama e paradoxo de frio embora suando suado morto sozinho, na rua, na calçada, nos desníveis, na falta de interesse da perfeição suposta.
Por quê? Por quê você ou algo assim se torna tão impotentemente desinteressante?
... foi mais do que você jamais disse, jamais pensou, viu, ouviu, declarou em suspiros de amor e nata cor de rosa com morango. Três pontos e me viro com não dor não decepção não a alegria do final de uma ressaca ao banho na banheira com rum; mas apenas a comprovação do óbvio implícito durante toda a vida, durante todos as frases de letras pequenas no contrato imaginário de uma relação inexistente. E o que sobra? Nada, suas idéias, tudo se torna:
nada.
Com suas vestimentas de araque, 7782 poderia significar alegria, poderia ser minha vida, poderia. E me vejo tão desinteressante no espelho, e me pergunto qual foi o momento da desinteressação robusta e ando muito magro, mas não o suficiente para desaparecer. Se eu desaparecesse, iria me interessar mais na minha história. Se eu sofresse, se minha dor transparece pelas minhas entranhas e saísse do fundo dessa boca como um bafo de catarro durante dias sem uma partícula de pasta de dentre, imediatamente eu me consideraria um alguém mais importante. O que é esse desejo tão irreprimível por estar tão escondido como debaixo do porão de uma casa sem porão, tão inalcançável e por causa disso inalterável, de ter sempre a minha porta a sofreguidão, o interesse pelo desprezo amoroso, a vontade de sofrer com a sua perda, o motivo para passar fome. Todos somos assim, alguém já disse, isso é que nem amar mulher apenas linda. Todos temos de ter um quê de dor, uma ferida profunda escondida ou uma história por trás, todos mantemos nossas fundações sobre areia movediça para esperar poder reconstruí-las em certo momento depois de tudo desabar e do mundo acabar e do sentido aparecer por entre as lágrimas de sangue que brotam da alma, esperando sempre um bom terreno para o meu prédio de apartamentos em que guardarei para as decepções os dormitórios com vista leste, as alegrias terão a garagem... e me engano, e tudo cai novamente e sou um bebê; ora, é só isso. Por isso é tão branca e tão invisível, por isso seus interesses são como um barman que adiciona água à água e se faz um drink de água que derruba ao te entregar, por isso é o vazio que enche o copo, por isso me troco de vida ao me divertir do vazio e me iludir com a cicatriz igualmente vazia que o nada me largou no coração. Sou tão
segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
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