Morava em uma casa branca de tamanho médio, maior e mais bem cuidada do que a minha. Sua geladeira realmente conservava as comidas, ao contrário da que tínhamos lá em casa, que estragava o leite em dois dias, e sua cama era quase do tamanho da cama de casal de meu pai, só que mais macia e aconchegante. Não chegava a ser uma morada invejada, pois também possuía os seus aspectos negativos, como o banheiro em que a luz não acendia mais, não importasse o que fosse feito. E, além de tudo, havia em Monte Rio muitas casas maiores e mais bonitas para os invejosos invejarem, e também muitas casas caindo aos pedaços para os invejosos morarem. Em sua maioria, todos eram meus vizinhos ou próximos disso. Mais do que os barracos de pintura descascada e de esquadrilhas quebradas, o que mais atormentava as pessoas que moravam na região eram os lares despedaçados: não era raro ver homens de aparência rude e parruda bêbados, deitados no que se assemelharia às varandas externas das casas de melhor qualidade, simplesmente esperando que a raiva e o ressentimento de suas esposas passassem logo, para que elas os deixassem, enfim, adentrar novamente em seus lares, por mais sujos e desconfortáveis que eles fossem. Às vezes, esses homens fixavam residência nas calçadas em frente a suas casas, orgulhosos ou estúpidos demais para perceberem que, na realidade, tudo que suas esposas desejavam era um honesto pedido de desculpas, isso porque já haviam aprendido a nunca esperar mais do que o estritamente instintivo dos homens de Monte Rio. Tristemente, parecia que mesmo com as expectativas tão abaixo do comum, essas mulheres ainda eram capazes de se frustrarem com seus maridos por mais uma vez, negligenciando a desilusão em que seus sonhos e suas vidas foram afogados para, em gestos de piedade, pena ou altruísmo, os perdoarem e reabrir, então, as portas de suas residências. E esses machos bestiais nunca admitiam sua culpa, jamais pediam perdão e nunca percebiam a resiliência angelical de suas esposas, que afundavam toda essa sofreguidão diária em reprimidos becos escuros de suas almas, e assim podiam continuar todos os seus serviços diligentemente.
O começo de minha relação com Emma foi tímido e de uma inconsistência desastrosa, o que fazia e ainda faz nascer em mim sentimentos de que eu possuo uma espécie de dívida para com ela, por nunca ter me julgado infantil ou ignorante demais quando eu realmente o era, por ter superado esse meu passado, esse meu eu do passado que, percebo agora, era terrivelmente vergonhoso. Talvez apenas seja uma sensação minha, e talvez, também, eu ainda seja tão ridículo quanto creio que era, ou nesse caso, até mais, por ter a arrogância de pensar que mudei para melhor. O que tento dizer aqui é que a minha vida, até agora, pode perfeitamente ser divida em três fases singulares, e que as duas reviravoltas que sofri foram por pura influência direta ou indireta de Emma. Sendo quem sou hoje em dia, sinto que devo todos os meus pensamentos, as minhas opiniões, o meu caráter e o meu coração a ela, que foi a principal e, honestamente, a única pessoa que pode ser considerada responsável por me moldar na forma em que estou.
A primeira grande reviravolta de minha vida foi o momento em que percebi o coração de Emma. As exatas circunstâncias de nosso primeiro encontro eu não consigo lembrar, por algum motivo. Não me recordo do porquê dela ter se aproximado de mim, justo de mim, um sujeito completamente mergulhado no estilo de vida que tanto desprezo agora, um parasita neste mundo, incapaz de formar um pensamento com começo e fim em sua própria mente, um lixo humano entediado e entediante, e se me descrevo como humano é simplesmente por não suportar mais autocomiseração, como qualquer outra pessoa que já tenha se sentido impregnada deste sentimento durante anos a fio. Os olhos de Emma causavam o primeiro impacto. Repletos de alguma sinestesia nostálgica e mágica, constantemente me lembravam um balde cheio de água escura, sempre a apenas uma gota de transbordar, negro o bastante para refletir com perfeição quem quer que olhasse para dentro dele. Eram intrigantes, misteriosos, úmidos. Sua expressão fazia parecer que ela estava em um eterno estado de quase choro e, apesar disso, seus olhos revelavam uma alegria tão distinta, tão íntima e afogada, que não imagino a palavra certa para descreve-la. Não consigo nem reconhecer se era realmente um sentimento de alegria ou uma profunda aceitação pelo universo como um todo, um amor libertário, uma compreensão distante e onisciente, uma libélula brilhante voando veloz através das pradarias, um trovão grave e assustador e dócil e calmante, uma dúvida sincera, uma resposta para tudo que não pode ser perguntado, um grito agonizante interno por ajuda, uma ajuda impossível de ser oferecida. Traziam consigo algo de muito antigo, uma experiência espectral e lúgubre. Com seu formato levemente amendoado, quase índio ou japonês, eram uma lembrança do oriente sábio e imaginário, o peso de mil anos nesse mundo em um brilho efêmero e enxuto, uma questão incalculável, impensável e indelével. O rio observado do alto do morro em dias de correnteza forte, quando toda a movimentação quieta se transforma em estupor solitário, um fogo invisível e impagável.
quarta-feira, 29 de julho de 2009
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depois eu que sou 'autobiográfico'
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