segunda-feira, 27 de julho de 2009

De Tom Waits, 1

      Emma foi a mulher mais impressionante que já conheci. Crescemos juntos, compartilhando a monotonia e o sol quente de Monte Rio. Seu pai costumava trabalhar próximo à minha casa, carregando pesados e pardos sacos de arroz. Conheci-a quando éramos jovens, ela devia estar no auge dos seus quinze anos, ou talvez recém feito quatorze. Sei que eu tinha dezessete. A primeira vez que eu a vi, fiquei estarrecido com o seu passo rápido e decidido e com o seu olhar negro sem brilho algum, profundo como as águas do rio, penetrante e certeiro. Meu pai estava desempregado, e vivíamos com a pouca quantia de dinheiro que ele herdara de seu irmão mais novo, um esbaforido comerciante de L.A., que morrera de tuberculose alguns anos antes. Eu ajudava fazendo bicos aqui e ali, mas meu maior passatempo era caminhar a ermo através da pequena cidade em que vivíamos. Em pouco tempo me cansava, não física, mas sim mentalmente, entediado até os ossos pelo tédio e pela falta de energia das pessoas que lá viviam, andróides anestesiados que procuravam não pensar em nada e, assim, evitar qualquer desapontamento com a maneira insossa e miserável com que carregavam suas vidas nas costas, do mesmo modo que o pai de Emma carregava um daqueles grandes sacos de arroz, por vezes pesado demais para ser agüentado. Julgar a vida como um fardo a ser superado era a visão geral dos cidadãos de Monte Rio, e foi assim que eu cresci, alienado à grandiloqüência que poderia existir além das fronteiras da limitada cidade. Nunca sonhara em dirigir um carro, nunca sequer cogitara que a vida podia ser algo mais do que simplesmente a rotina monótona e insistente, insubstancial em sua essência dura como pedra, dura como o olhar severo daquele povo trabalhador e diligente e, entretanto, profundamente ignorante e intolerante. Em minhas caminhadas, pude também perceber que nada do que falo aqui possui exagero algum: realmente, a vida lesou tão fortemente o espírito dos homens da região que, apenas por ter nascido lá mesmo, vivo eternamente com a marca indesejada e imutável da secura da alma. Nunca havia percebido o quão rasa era a minha existência, até conhecer Emma. Os homens de lá eram demasiadamente desumanos ou demasiadamente humanos para admitir qualquer demonstração mais explicita de sentimentos, e, até Emma, eu não tinha tanta certeza de que eu os possuía, afinal. Jamais presenciara qualquer melancolia exterior à mente e à alma das pessoas, nunca havia chorado por desesperança ou por desespero profundo com a inexorabilidade que rege esse inconsistente e inexato mundo. A minha mente procurava se ocupar com as pedras da calçada, com a correnteza eterna do rio, com o cotidiano encarado como cotidiano. Não percebia beleza alguma. Me parecia essencial, ridículo e completamente natural o verde das plantações, o céu azul salpicado pelas pequenas nuvens brancas, o fluxo da água, tudo isso tão maior que nós e, ao mesmo tempo, tão despretensioso. Gente como aquela gente que vive por lá não sabe ver beleza mesmo. Não entende que, restrita da náusea, do pavor, do susto e do desejo, a beleza é só mais um aspecto desprezível que compõe o todo. Ademais, não poderia ousar dizer que os homens evitavam qualquer espécie de sentimento forte o bastante para ser distinguido da calmaria eterna e estável em que se encontravam constantemente; entretanto, afinal, como nenhum desses sentimentos se revelava por espontâneo em suas vidas, e, óbvio, ninguém possuía a audácia de os procurar e perseguir, o amor, a tristeza, o ódio e a felicidade íntima eram todos ignorados ou nulos no coração das pessoas, não mais que invisíveis presenças que haviam deixado há muito aqueles espíritos incolores e solidificados.
      Não conversei com Emma na primeira vez em que eu a vi. Aliás, sempre era ela que conversava comigo, e não o contrário. Por estar tão absorto nesse miasma sufocante, uma mistura de paralisia com ignorância, não tive nem a capacidade de interpretar os meus próprios impulsos e perceber como, desde o primeiro olhar interceptado, fiquei impressionado por ela, estranhamente hipnotizado por tudo o que ela representava. Emma não era nova em Monte Rio, já morava lá há uns 3 ou 4 anos e, como todas as suas características externas e internas denunciavam, ela não era uma nativa que nem eu. Nascida em San Diego, foi criada principalmente pela mãe, porque seu pai passara um tempo na cadeia quando ela era menor, por algum motivo qualquer. Era uma menina dotada do mais liberto e inocente espírito que eu já havia notado, não que eu soubesse diferenciar as idiossincrasias de cada indivíduo e decifra-las antes de conhecer Emma melhor, porém, mesmo em toda a minha ignorância, pude perceber o quão especial e distinta e, conseqüentemente, solitária ela era. Mudou-se junto com seu pai para Monte Rio quando sua mãe faleceu; o porquê de sua morte nunca me foi revelado e, penso agora, provavelmente nem ela mesma sabia qual era. Era alta para sua idade, e emanava um algo intrínseco e indefinível, um sabor igualmente atraente e repelente. Não foram poucas as pessoas que, assim que sentiam essa energia inerente a ela, assustavam-se, mesmo que inconscientemente, por estarem desacostumados com uma presença tão notável. E, assim, gradativamente se afastavam de Emma. E em um lugar restrito como Monte Rio, não existiam pessoas o suficiente para agüentar a fortaleza espiritual que ela era. A sua criatividade imprevisível, suas explosões de sentimentos, a sua percepção aguçada e sensorial, sua risada que se desencadeava como uma combustão, sua sensibilidade instintiva, sua condescendência aparentemente imperceptível e oculta, todas as suas particularidades irreprimíveis a tornavam a pessoa mais imperfeita, mais irresponsável, mais irreverente e mais esquisita que eu já havia conhecido. E, ao mesmo tempo, a pessoa mais honesta também. Ou a única pessoa honesta que eu já vi em toda essa minha vida. Sei que, com o passar do tempo, apesar de nenhum desses traços de sua personalidade que costumeiramente repeliam as pessoas ter se abrandado ou se metamorfoseado em algo positivo, ela foi se tornando, aos poucos, perfeita. Perfeita para mim. Mesmo com todos os seus defeitos tão repreensíveis. Foi então que perdi todos os meus antigos parâmetros, que me afundei na água mais lamacenta da humanidade e dei onze cambalhotas e deixei apenas os meus pés respirarem, por saber agora que a minha cabeça e as minhas idéias não serviriam para nada. Pude perceber que o certo e o errado são puras convenções e, como tais, são efêmeras e mutáveis; aprendi que toda essa noção do moralmente correto é uma ilusão, o legal e o ilegal; passei a assistir cavalos cagando e chegava a apreciar o espetáculo escatológico e a sua controversa essencialidade e beleza, pura, simples e fedida.

Um comentário:

  1. pleonasmo eim singular e único são sinônimos.
    brincadeira ficou bem escrito pra cacete cara, gostei mesmo. tanto que lí prestando atenção até o fim

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