sábado, 15 de agosto de 2009

Cronologia de um impulso

O tremor surgiu,
surgiu sem avisos,
trouxe a surpresa e a calamidade,
a verossimilhança:
(e é dela que eu preciso -
quando acredito que existo
me esqueço que sabem também
me torna incompreensível
a sabedoria inerente à alma geral humana)

(De qualquer jeito, maneira,
idiossincrasias,
credos,
é na nossa essência
que repousa a realidade:
livre de distorções,
crê nela que ela é você.
Crê nela mesmo sem saber,
que sem ela nunca existiu -
tampouco para avaliar sua inexistência)

E, de súbito
fez se luz, dia, claridade
e jorrou, clamou a liberdade,
tudo que fora trancafiado,
empurrado à força e à mentira
(a extorsão que permite o despertar),
de maneiras terríveis &
impossíveis de voltar à tona,
a própria existência -
desconhecida, sem face,
irresoluta, abnegada,
imaterial, imprescindível -
implodiu-se em duzentos bilhões,
em incontáveis e infinitos milésimos de tempo e realidade,
circundando todo coração pulsante,
adentrando casas despedaçadas em famílias encouraçadas,
transpassando e perdendo a si mesma
ao espalhar o regozijo,
o despencar do paraíso,
a queda brusca e dolorida,
o entendimento necessariamente náuseante &
individual
(& mundial)

E por cada lágrima que exasperou-se
na decorrência do desastre,
sua bruta energia,
a cândida leveza molecular
reestruturou-se em minérios,
valiosos, efêmeros, mutáveis -
e o indelével explodiu-se e
mudou a estação
e a menina que se cortava se viu costurada,
e cada aba solta de seu coração estava,
como que de repente,
presa novamente ao ao interior imaterial,
a o grisalho reclamou pela última vez,
desgraçando o choro,
doente da alma,
duro na essência,
imutável - (ao menos,
sua mudança fora sutil:
da estagnação ao estupor,
à petrificação e ao empalhamento,
tudo que restou foram duplas vivas
se lixo e restos de experiências impossíveis,
nunca ocorridas,
irreais,
nostálgicas e mentirosas como toda nostalgia se prova,
o gosto azul na boca inerte)

Por um estalo,
as plataformas ruíram e tremeram,
as bases não existiam mais para seus apoios,
pelos apoios que não existiam mais para suas bases,
e separados -
lembra-se que tudo se desvencilha,
exceto pelos olhos, nunca desvinculados
da importância negra, brilhante,
clara e iluminada quando se quebra por dentro -
tudo pôde ser visto,
notado como individual,
à distância, tudo apareceu,
tão confortalmente,
que pude dormir.

(Se me lembrasse do sentimento, da memória, antes dela quebrar e se estilhaçar -
aí ainda existiria uma ponta dessa terra farta para chamar de minha -
como o sentido é relativo,
impossível de ser evitado quando iniciado,
inesgotável em sua essência,
impossível de ser acordado quando terminado.

E, pois, o sentido é impossível, como tudo que é demais:
é a medida circular, o começo e o término inexistentes e equivalentes)



- e, assim, me agarro à memórias quebradas,
a mentiras e incertezas da vida e de quem sou,
e me sinto muito melhor,
cercado e mergulhado, em estupor solitário,
esquecido
no azul -

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