segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Facada

Se eu fosse completo:
me esqueceria que vivo,
me deixaria em cacos,
tendo a convicção de poder me juntar tudo de novo.

Lembraria da vida só quando ela fosse imutável:
a cada gota de água dessa chuva que bate nos vidros
um baque ecoaria por dentro de mim, se exteriorizando,
se tornando a gelada marcha da vitória,
a incompreensão solitária e nunca desgastante.

Se eu fosse inteiro:
diria que sou denso,
não renegaria cada sorriso humano,
abraçaria as ondas que quebram em meu torso imóvel.

Me esgotaria.
Me faria sujo, me jogaria aos prantos e rolaria nos seus azulejos,
imploraria por uma espectral visão dessa Luz,
que se faz em você.

Não posso ser completo.
Não é um choro que me destrancaria,
não é a minha vitória,
não é a minha culpa.
Não foi. Eu, nunca foi eu.

Beleza não é distinta. Separada da náusea e do pavor, como ela brilharia?
Ressôo. Oco.

Se eu fosse completo:
rezaria para derreter.

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