sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Sustos

O primeiro susto traz consigo a vida:
é o susto da realidade,
assumir a cada momento
que a inflexibilidade concreta
é tudo que existe

O segundo susto nega:
posso transcorrer através
e sou fluido no interior
negando a minha dura carapaça
disvirtuo meu próprio ao redor

O terceiro susto,
o quarto susto,
o quinto susto, vêm incoerentes,
se confundem,
fazem esquecer que até ontem havia mais estrelas no céu enevoado
fortalecem nossa pele e quebram nossos olhos,
tornam-nos acostumados à vida
retiram o furor de cada baforada

E a couraça intransponível ainda não é o bastante
para durar
por mais um susto

O fluxo de visões é gelado e quebradiço:
ao respirar, tremeluzindo no lusco-fusco,
a fumaça das almas e de suas criações pesa no interior

Por que tratamos-a como necessária?
Afinal, nada pode ser abstrato
entretando, nada se dissolve e
pardais cantam e o Tempo, ah, o Tempo
por que o Tempo merece uma letra maiúscula?
se é inquebrável e nosso respeito lhe é indiferente
é porque é próximo nosso e dói
e é fraco para se assumir, de vez,
como ilusão..

À toa.
Cada praça, em prepotente verdidão,
se cria diante
por se acreditar suficientemente linda
e merecedora de Luz

Cansamos e não sabemos nem o porquê.
Como concluir o segundo se assumindo merecedor
de qualquer coisa que acredita que acredita que existe?

Quase que relaxo antes de me entregar ao estupor de cada noite
me engano, pensando estar diante do fechamento de um estágio

O susto de acordar cada manhã e ver o dia clarear.

Um comentário:

  1. Pô parece ,lendo o começo, que você fez as perguntas certas. Quer dizer pelo menos para descrever

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