quarta-feira, 29 de julho de 2009

De Tom Waits, 2

      Morava em uma casa branca de tamanho médio, maior e mais bem cuidada do que a minha. Sua geladeira realmente conservava as comidas, ao contrário da que tínhamos lá em casa, que estragava o leite em dois dias, e sua cama era quase do tamanho da cama de casal de meu pai, só que mais macia e aconchegante. Não chegava a ser uma morada invejada, pois também possuía os seus aspectos negativos, como o banheiro em que a luz não acendia mais, não importasse o que fosse feito. E, além de tudo, havia em Monte Rio muitas casas maiores e mais bonitas para os invejosos invejarem, e também muitas casas caindo aos pedaços para os invejosos morarem. Em sua maioria, todos eram meus vizinhos ou próximos disso. Mais do que os barracos de pintura descascada e de esquadrilhas quebradas, o que mais atormentava as pessoas que moravam na região eram os lares despedaçados: não era raro ver homens de aparência rude e parruda bêbados, deitados no que se assemelharia às varandas externas das casas de melhor qualidade, simplesmente esperando que a raiva e o ressentimento de suas esposas passassem logo, para que elas os deixassem, enfim, adentrar novamente em seus lares, por mais sujos e desconfortáveis que eles fossem. Às vezes, esses homens fixavam residência nas calçadas em frente a suas casas, orgulhosos ou estúpidos demais para perceberem que, na realidade, tudo que suas esposas desejavam era um honesto pedido de desculpas, isso porque já haviam aprendido a nunca esperar mais do que o estritamente instintivo dos homens de Monte Rio. Tristemente, parecia que mesmo com as expectativas tão abaixo do comum, essas mulheres ainda eram capazes de se frustrarem com seus maridos por mais uma vez, negligenciando a desilusão em que seus sonhos e suas vidas foram afogados para, em gestos de piedade, pena ou altruísmo, os perdoarem e reabrir, então, as portas de suas residências. E esses machos bestiais nunca admitiam sua culpa, jamais pediam perdão e nunca percebiam a resiliência angelical de suas esposas, que afundavam toda essa sofreguidão diária em reprimidos becos escuros de suas almas, e assim podiam continuar todos os seus serviços diligentemente.
      O começo de minha relação com Emma foi tímido e de uma inconsistência desastrosa, o que fazia e ainda faz nascer em mim sentimentos de que eu possuo uma espécie de dívida para com ela, por nunca ter me julgado infantil ou ignorante demais quando eu realmente o era, por ter superado esse meu passado, esse meu eu do passado que, percebo agora, era terrivelmente vergonhoso. Talvez apenas seja uma sensação minha, e talvez, também, eu ainda seja tão ridículo quanto creio que era, ou nesse caso, até mais, por ter a arrogância de pensar que mudei para melhor. O que tento dizer aqui é que a minha vida, até agora, pode perfeitamente ser divida em três fases singulares, e que as duas reviravoltas que sofri foram por pura influência direta ou indireta de Emma. Sendo quem sou hoje em dia, sinto que devo todos os meus pensamentos, as minhas opiniões, o meu caráter e o meu coração a ela, que foi a principal e, honestamente, a única pessoa que pode ser considerada responsável por me moldar na forma em que estou.
      A primeira grande reviravolta de minha vida foi o momento em que percebi o coração de Emma. As exatas circunstâncias de nosso primeiro encontro eu não consigo lembrar, por algum motivo. Não me recordo do porquê dela ter se aproximado de mim, justo de mim, um sujeito completamente mergulhado no estilo de vida que tanto desprezo agora, um parasita neste mundo, incapaz de formar um pensamento com começo e fim em sua própria mente, um lixo humano entediado e entediante, e se me descrevo como humano é simplesmente por não suportar mais autocomiseração, como qualquer outra pessoa que já tenha se sentido impregnada deste sentimento durante anos a fio. Os olhos de Emma causavam o primeiro impacto. Repletos de alguma sinestesia nostálgica e mágica, constantemente me lembravam um balde cheio de água escura, sempre a apenas uma gota de transbordar, negro o bastante para refletir com perfeição quem quer que olhasse para dentro dele. Eram intrigantes, misteriosos, úmidos. Sua expressão fazia parecer que ela estava em um eterno estado de quase choro e, apesar disso, seus olhos revelavam uma alegria tão distinta, tão íntima e afogada, que não imagino a palavra certa para descreve-la. Não consigo nem reconhecer se era realmente um sentimento de alegria ou uma profunda aceitação pelo universo como um todo, um amor libertário, uma compreensão distante e onisciente, uma libélula brilhante voando veloz através das pradarias, um trovão grave e assustador e dócil e calmante, uma dúvida sincera, uma resposta para tudo que não pode ser perguntado, um grito agonizante interno por ajuda, uma ajuda impossível de ser oferecida. Traziam consigo algo de muito antigo, uma experiência espectral e lúgubre. Com seu formato levemente amendoado, quase índio ou japonês, eram uma lembrança do oriente sábio e imaginário, o peso de mil anos nesse mundo em um brilho efêmero e enxuto, uma questão incalculável, impensável e indelével. O rio observado do alto do morro em dias de correnteza forte, quando toda a movimentação quieta se transforma em estupor solitário, um fogo invisível e impagável.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

De Tom Waits, 1

      Emma foi a mulher mais impressionante que já conheci. Crescemos juntos, compartilhando a monotonia e o sol quente de Monte Rio. Seu pai costumava trabalhar próximo à minha casa, carregando pesados e pardos sacos de arroz. Conheci-a quando éramos jovens, ela devia estar no auge dos seus quinze anos, ou talvez recém feito quatorze. Sei que eu tinha dezessete. A primeira vez que eu a vi, fiquei estarrecido com o seu passo rápido e decidido e com o seu olhar negro sem brilho algum, profundo como as águas do rio, penetrante e certeiro. Meu pai estava desempregado, e vivíamos com a pouca quantia de dinheiro que ele herdara de seu irmão mais novo, um esbaforido comerciante de L.A., que morrera de tuberculose alguns anos antes. Eu ajudava fazendo bicos aqui e ali, mas meu maior passatempo era caminhar a ermo através da pequena cidade em que vivíamos. Em pouco tempo me cansava, não física, mas sim mentalmente, entediado até os ossos pelo tédio e pela falta de energia das pessoas que lá viviam, andróides anestesiados que procuravam não pensar em nada e, assim, evitar qualquer desapontamento com a maneira insossa e miserável com que carregavam suas vidas nas costas, do mesmo modo que o pai de Emma carregava um daqueles grandes sacos de arroz, por vezes pesado demais para ser agüentado. Julgar a vida como um fardo a ser superado era a visão geral dos cidadãos de Monte Rio, e foi assim que eu cresci, alienado à grandiloqüência que poderia existir além das fronteiras da limitada cidade. Nunca sonhara em dirigir um carro, nunca sequer cogitara que a vida podia ser algo mais do que simplesmente a rotina monótona e insistente, insubstancial em sua essência dura como pedra, dura como o olhar severo daquele povo trabalhador e diligente e, entretanto, profundamente ignorante e intolerante. Em minhas caminhadas, pude também perceber que nada do que falo aqui possui exagero algum: realmente, a vida lesou tão fortemente o espírito dos homens da região que, apenas por ter nascido lá mesmo, vivo eternamente com a marca indesejada e imutável da secura da alma. Nunca havia percebido o quão rasa era a minha existência, até conhecer Emma. Os homens de lá eram demasiadamente desumanos ou demasiadamente humanos para admitir qualquer demonstração mais explicita de sentimentos, e, até Emma, eu não tinha tanta certeza de que eu os possuía, afinal. Jamais presenciara qualquer melancolia exterior à mente e à alma das pessoas, nunca havia chorado por desesperança ou por desespero profundo com a inexorabilidade que rege esse inconsistente e inexato mundo. A minha mente procurava se ocupar com as pedras da calçada, com a correnteza eterna do rio, com o cotidiano encarado como cotidiano. Não percebia beleza alguma. Me parecia essencial, ridículo e completamente natural o verde das plantações, o céu azul salpicado pelas pequenas nuvens brancas, o fluxo da água, tudo isso tão maior que nós e, ao mesmo tempo, tão despretensioso. Gente como aquela gente que vive por lá não sabe ver beleza mesmo. Não entende que, restrita da náusea, do pavor, do susto e do desejo, a beleza é só mais um aspecto desprezível que compõe o todo. Ademais, não poderia ousar dizer que os homens evitavam qualquer espécie de sentimento forte o bastante para ser distinguido da calmaria eterna e estável em que se encontravam constantemente; entretanto, afinal, como nenhum desses sentimentos se revelava por espontâneo em suas vidas, e, óbvio, ninguém possuía a audácia de os procurar e perseguir, o amor, a tristeza, o ódio e a felicidade íntima eram todos ignorados ou nulos no coração das pessoas, não mais que invisíveis presenças que haviam deixado há muito aqueles espíritos incolores e solidificados.
      Não conversei com Emma na primeira vez em que eu a vi. Aliás, sempre era ela que conversava comigo, e não o contrário. Por estar tão absorto nesse miasma sufocante, uma mistura de paralisia com ignorância, não tive nem a capacidade de interpretar os meus próprios impulsos e perceber como, desde o primeiro olhar interceptado, fiquei impressionado por ela, estranhamente hipnotizado por tudo o que ela representava. Emma não era nova em Monte Rio, já morava lá há uns 3 ou 4 anos e, como todas as suas características externas e internas denunciavam, ela não era uma nativa que nem eu. Nascida em San Diego, foi criada principalmente pela mãe, porque seu pai passara um tempo na cadeia quando ela era menor, por algum motivo qualquer. Era uma menina dotada do mais liberto e inocente espírito que eu já havia notado, não que eu soubesse diferenciar as idiossincrasias de cada indivíduo e decifra-las antes de conhecer Emma melhor, porém, mesmo em toda a minha ignorância, pude perceber o quão especial e distinta e, conseqüentemente, solitária ela era. Mudou-se junto com seu pai para Monte Rio quando sua mãe faleceu; o porquê de sua morte nunca me foi revelado e, penso agora, provavelmente nem ela mesma sabia qual era. Era alta para sua idade, e emanava um algo intrínseco e indefinível, um sabor igualmente atraente e repelente. Não foram poucas as pessoas que, assim que sentiam essa energia inerente a ela, assustavam-se, mesmo que inconscientemente, por estarem desacostumados com uma presença tão notável. E, assim, gradativamente se afastavam de Emma. E em um lugar restrito como Monte Rio, não existiam pessoas o suficiente para agüentar a fortaleza espiritual que ela era. A sua criatividade imprevisível, suas explosões de sentimentos, a sua percepção aguçada e sensorial, sua risada que se desencadeava como uma combustão, sua sensibilidade instintiva, sua condescendência aparentemente imperceptível e oculta, todas as suas particularidades irreprimíveis a tornavam a pessoa mais imperfeita, mais irresponsável, mais irreverente e mais esquisita que eu já havia conhecido. E, ao mesmo tempo, a pessoa mais honesta também. Ou a única pessoa honesta que eu já vi em toda essa minha vida. Sei que, com o passar do tempo, apesar de nenhum desses traços de sua personalidade que costumeiramente repeliam as pessoas ter se abrandado ou se metamorfoseado em algo positivo, ela foi se tornando, aos poucos, perfeita. Perfeita para mim. Mesmo com todos os seus defeitos tão repreensíveis. Foi então que perdi todos os meus antigos parâmetros, que me afundei na água mais lamacenta da humanidade e dei onze cambalhotas e deixei apenas os meus pés respirarem, por saber agora que a minha cabeça e as minhas idéias não serviriam para nada. Pude perceber que o certo e o errado são puras convenções e, como tais, são efêmeras e mutáveis; aprendi que toda essa noção do moralmente correto é uma ilusão, o legal e o ilegal; passei a assistir cavalos cagando e chegava a apreciar o espetáculo escatológico e a sua controversa essencialidade e beleza, pura, simples e fedida.

domingo, 26 de julho de 2009

Sobre Lembranças.

Pessoas que pensam,
pessoas que falam,
como existem.

A soberba,
a mentira cristalizada,
encrustada no fundo interior escuro
& inexorável.

Devagar, reclamo,
Altitude, leviandades,
prolificidade é a sombra do gênio;
é a marca diferencial da mente fluida,
do molde indefinido e,
paradoxalmente:
estabilidade é o rumo ao naufrágio,
à moribunda criatividade:

Se pudesse,
e fosse tão menos calculado,
falaria sobre "nós".

Sobre como "nós" somos
todos irrepreensíveis
todos errados,

Petulantes e mórbidos,
anestesiados da vida,
desdobramo-nos em frivolidades
ao rugir do desencanto ignorado,
à luta solitária e mágica
travada contra sua Humanidade,
o nosso ceticismo.

Marginalimo-nos por cima,
prendemo-nos a nossas camas,
judiamos da honestidade,

Destratada inocência:
há longo esquecida e enterrada,
por toneladas e toneladas
de maladragem e autoconfiança,
em petulância e prepotência.

O olho se revira,
se revolta,
e não evita o de cima-para-baixo

Não há mais acalantos
capazes de destoar ou fragmentar
a desesperança,
e o sono é a presença aterradora
que mais me mina.

Quanto mais tenho para dizer,
menos logro em me expressar.

Quanto mais balbucio disformemente,
doente, sádico, sórdido,
mais próximo do ser Humano me sinto.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Até a chuva me lavar

Como eu poderia fazer diferente?
O esforco é solitário, sua essência é o clamor pela lua brilhante na noite que escurece;

Chamo porque não sei mais quem sou
Chamo pela perda da identidade que eu nunca possui

(E a mentira que grita por dentro dos coracões encarcerados, ansiosa para poder ser vista e ter a atencão que merecia, é como toda essa eletricidade eterna deveria ser encarada em olhos vermelhos e flautas tão antigas que não me lembro mais do que instigava para contar)

O conto é a arte mais maravilhosa.
Triste poderio alcanca o mar;
O azul me dissolve e nele eu me embriago.